domingo, 18 de outubro de 2026

REVISTA CHAMA N.º 18

































 

ENTREVISTA AO JOAQUIM TEIXEIRA NO ÂMBITO DA REVISTA CHAMA N.º 18

 


1. A pessoa: o Joaquim

Entrevistador: Então, começamos pela pessoa, pelo Teixeira. O nome do Teixeira?

Teixeira: Joaquim Fernandes Teixeira.

 

Entrevistador: Ora, o Joaquim Fernandes Teixeira, conforme nós o conhecemos, também conhecido por “Quim da Lage”.

Entrevistador: Nasceu em Urgezes, em 1957. Então, nasceu e cresceu Urgezes…. Quando é que surgiu o 1º contacto com o escutismo?

Teixeira: O 1º contacto com o escutismo foi na altura em que andávamos na catequese. Acho que já andava na preparação para a comunhão solene. E, portanto, foi quando o Padre Joaquim Pimenta veio para Urgezes, e resolveu fundar o escutismo… acabou por ser natural.

 


2. As primeiras memórias

Entrevistador: Então podemos dizer que realmente é dos primeiros escuteiros de Urgezes, da fundação.

Teixeira: Penso que uns anos antes houve um grupo que tentou arrancar o escutismo mas não funcionou, o nosso agrupamento nasce com a iniciativa do Padre Pimenta Rodrigues, um grupo do qual fiz parte em finais de 1968.

Teixeira: Normalmente fala-se na fundação do CNE em 1969, mas foi em novembro de 1968 que arrancou a alcateia dos lobitos em Urgezes e o agrupamento propriamente dito nasce em Junho de 1969.

 

Entrevistador: Então, a pergunta o que é que o levou para o escutismo acaba por não fazer grande sentido…

Teixeira: Não, não faz. Era um grupo de amigos que fazia parte da catequese e agarrou-se a uma novidade. Praticamente foi quase por, não por imposição, mas de forma natural fomos todos arrastados para o escutismo. Aquilo era novidade, quase ninguém sabia o que era o escutismo, não havia muitos agrupamentos à volta e era algo desconhecido, até porque eram tempos em que não haviam relações com as freguesias à volta com a facilidade que vemos hoje, acabávamos por viver mais na nossa paróquia.

 

Entrevistador: Também não havia facilidade nas deslocações como há hoje e isso faz diferença hoje em dia.

Teixeira: Eramos miúdos de 9 ou dez anos, começamos com um grupo de 14 ou 15, dois bandos (o bando branco e o bando preto) dos quais fazíamos parte eu, o Araújo e o Lima logo no grupo inicial, sendo que depois se juntaram outros como o Chico, o Delfim e outros. Naquela altura andaríamos na quarta classe, se calhar já quase, terceira, quarta, talvez.

 

Entrevistador: E a família naquele tempo, as famílias tinham muito mais trabalho em casa. Como é que eles olhavam para um filho que “fugia” para um escutismo desconhecido?

Teixeira: Não queriam. Aquilo praticamente não foi fugir, aquilo foi, quase um prolongamento da catequese, e fui o único filho a ser escuteiro. Foi se calhar se calhar o facto de ser através da catequese e que acabou por ser aceite e funcionar. Mas o dia de reunião era sem dúvida uma festa, as reuniões eram a segunda-feira e serviam também como uma desculpa para fugir ao trabalho que a minha família ia fazendo na agricultura.

 

Entrevistador: Mas é engraçado porque nota-se que a relação entre escuteiros, é uma verdadeira relação de amizade, especialmente nas gerações mais antigas em que as distrações eram muito menos. Ou seja, esse tal querer sair de casa porque não havia mais nada, tinha outro significado e acabava por unir muito mais uns aos outros.

Teixeira: É verdade e isso nota-se num grupo que ainda hoje se reúne anualmente por altura da Senhora da Lapinha em que de 13 ou 14 pessoas, no mínimo 8 vêm desses primeiros tempos de escutismo em Urgezes. A ligação ficou sempre… e há sempre coisas e pessoas para lembrar, é uma ligação bonita que perdura.

 

Entrevistador: Nesses primeiros passos que deu no escutismo, o que é que se recorda?

Teixeira: Era uma coisa nova que ninguém conhecia, foi o confiar naquilo que o padre Joaquim nos passava... ele era sem dúvida uma referência para nós.

 

Entrevistador: Mas é engraçado porque ao falarmos do Padre Joaquim com alguns de vocês que fizeram parte desse grupo inicial nota-se um sentimento especial… quem conheceu o padre Joaquim, já numa numa fase mais para frente da sua vida em Urgezes, recorda-se de uma pessoa com regras, uma pessoa muito no seu lugar e por quem havia um respeito enorme, mas quando ouvimos o Teixeira, o Lima ou o Araújo por exemplo falar dele, sentimos que ouvimos falar um pouco de um outro padre Joaquim, uma pessoa muito mais próxima, se calhar mais amigo (não que ele não fosse nosso amigo) ….

Teixeira: Era sem dúvida um amigo, uma pessoa que pautava pela disciplina, mas talvez porque trazia essa novidade do escutismo, arranjou uma forma diferente de nos abraçar a todos de uma forma especial... Criamos por ele, pela Àquela e também pelo Chefe Zé Maria um carinho especial. Aliás, quando nos juntamos, esse tal grupo dos antigos escuteiros, como é conhecido, acabamos sempre por de alguma forma os lembrar nas nossas conversas. A verdade é que o escutismo naquela época permitia-me “fugir” um pouco de casa, do trabalho da lavoura (porque eu era de uma família de trabalho no campo), e essa fuga permitiu criar um grupo de amigos excecional.

 

Entrevistador: Há alguma atividade, acampamento, cerimónia logo nestes primeiros anos que fico marcada?

Teixeira: Acho que todos os momentos forma marcantes de alguma forma, desde logo aqueles primeiros passos, aquela novidade que era o escutismo, mas há uma atividade que fizemos, um acampamento em Santiago de Compostela que me ficou na memória, talvez pelo facto de termos ido a Espanha, fora de país, mas também pelo temporal que se fez sentir e claro pelas peripécias que guardo – e agora que estamos a falar disso há algumas que até nem me lembrava mas que vem à memória e me fazem sorrir.

 

Entrevistador: Quando falamos da fundação do CNE em Urgezes, naquela altura, daquele grupo de escuteiros jovens que hoje são adultos, tinham a perceção da importância que isto poderia ter na vida de cada um de vocês e mesmo para a própria paróquia de Urgezes?

 Teixeira: Não, não mesmo. Não podíamos esperar de forma alguma aquilo que nos esperava…. Não tínhamos a noção, nada, nada, nada…. Começamos num desconhecimento enorme, mas com uma confiança também desmedida em quem nos guiava nesse caminho. A própria farda começa por ter as suas histórias, porque no início a camisa era azul e depois havia o calção e as meias e jarreteiras. Eu e outro na altura tínhamos uns calções diferentes mas há ultima da hora alguém arranjou um tecido e fizeram-nos uns calções iguais aos dos outros para irmos todos iguais. Já aqui começava o brio e o gosto do fardamento em condições que o Padre Joaquim sempre defendeu.

 


3. O escutismo e a formação da pessoa

Entrevistador: O que é que o escutismo lhe foi ensinando enquanto criança e jovem? Ainda naquela fase de criança e jovem, o que é, se há alguma coisa que tenha sentido? Eu costumo dizer, por exemplo eu, que que o escutismo me ensinou a estar em grupo. Há alguma coisa que que desde esse momento sinta que fez a diferença?

Teixeira: Pois bem, a ideia que eu tenho, já vão já lá vão para os 50 e anos, mas acho que a palavra que melhor responde a essa questão é regras, o hábito de ter regras e de estar em grupo, eramos todos diferentes e essas regras em patrulha fizeram toda a diferença.

 

Entrevistador: Podemos dizer que há valores que tenha aprendido no escutismo e que ainda hoje orientam a sua vida.

Teixeira: Sempre. Sempre foram valores que se mantiveram ao longo de toda a vida.

 

Entrevistador: Quando olhamos para a pessoa que era quando entrou para os escuteiros, e para o Joaquim dos dias de hoje, acha que o escutismo contribuiu para a personalidade que criou durante a vida?

Teixeira: Sim senhor, mesmo, sem dúvida nenhuma… aliás, isso acompanhou sempre praticamente em minha vida, mesmo depois de sair do CNE e durante 30 anos de interregno… até porque o escutismo é sem margem para dúvidas uma escola de vida… Muitas vezes damos por nos a comentar entre nós (aqueles que conviverem de perto com o Padre Joaquim Pimenta Rodrigues) a dizer que faz falta é aqui o Padre Pimenta, pela falta de regras e organização que assistimos em muitas das coisas que vamos vivendo. Há um reconhecimento nesse aspeto fora de serie por aquilo que representou o Padre Joaquim.

 

Entrevistador: Hoje nós notamos que às vezes faz falta aquela a regra certa na altura certa, dá-se liberdade a mais….

Teixeira: Exatamente. É verdade…. Lá está por isso é que tantas vezes ouvíamos o nosso amigo Araújo dizer “faz falta aqui o Pimenta Rodrigues…”

 

Entrevistador: Então podemos dizer que que sim, que o escutismo contribuiu de forma a lidar com pessoas, com responsabilidades e mesmo com as dificuldades do dia-a-dia. Há alguma característica da sua personalidade que reconheça como tendo sido particularmente moldada pelo escutismo?

Teixeira: Acho que sim, posso mesmo dizer que foram pilares – Rigor, disciplina, ponderação calma e mesmo organização… a minha calma, sou bocado calmo, não sou muito, sou um bocado ponderado e em muito se deve ao escutismo.

 

Entrevistador: E a nível profissional? O Teixeira já está reformado, mas durante o seu trabalho, que foi de lidar com pessoas no dia-a-dia, o escutismo também ajudou?

Teixeira: Acaba tudo por estar interligado de alguma forma e contribuir sempre… o escutismo e a vida em patrulha ensina-nos sobre a equipa, a responsabilidade, a própria liderança e são valores que depois são essenciais no nosso dia a dia e no nosso trabalho.

 


4. Trabalho em equipa e liderança

Entrevistador: O que aprendeu no escutismo sobre trabalhar com pessoas diferentes de nós?

Teixeira: Aprendi a ser tolerante e a aceitar as diferenças dos outros, sem dúvida.

 

Entrevistador: Ao longo dos anos assumiu também responsabilidades em várias direções, principalmente na FNA. O que é que significa para si liderar dentro de 1 associação como a FNA, sendo que conhecemos um Teixeira, que habitualmente não é a pessoa que gosta de ir com a bandeira lá na frente, prefere ir mais no meio a empurrar os outros? É uma pessoa de trabalho… mas o que é que significou fazer parte de várias direções na FNA?

Teixeira: Essencialmente o sentido de responsabilidade. Isso nem discussão…. Mas também um orgulho muito grande.

 

Entrevistador: O Zé Carlos quando deixou a presidência do Núcleo assumiu que as primeiras duas pessoas com quem quis contar na direção dele eram o Teixeira e o Araújo, o Teixeira pela calma e ponderação, como que um pêndulo essencial e o Araújo pelo gosto pela FNA e de não fazer apenas por fazer… mas para além dessa direção vemos um Teixeira orgulhoso por ter feito parte das direções que fez até hoje, incluindo a atual da qual é Vice-Presidente.

Entrevistador: É mais difícil liderar ou trabalhar em e com a equipe?

Teixeira: Eu acho que é mais difícil liderar. Porque nunca é fácil liderar, são várias personalidades diferentes, várias ideias e quando falamos de adultos a coisa ainda é mais especial, os adultos têm uma ideia própria e na FNA falamos de liderança de adultos…

 

Entrevistador: O que é que considera essencial para que um grupo de pessoas como nós, no nosso Núcleo de Urgezes da FNA, consiga permanecer unido durante tantos anos como temos conseguido?

Teixeira: Penso que são três pontos essenciais, o respeito, a amizade e o exemplo.

  


5. O afastamento e o regresso

Entrevistador: Então, foi escuteiro até aos vinte e poucos, foi à tropa, e a vida chama-o para outros caminhos, Acaba por se afastar do movimento escutista, o que acaba por ser um trajeto natural. Aqui a questão é como aconteceu esse afastamento?

Teixeira: Na altura da minha geração eramos já poucos, foram se afastando uns e outros e quando fui para a tropa, cumprir o serviço militar, o afastamento foi mais forçado ainda… Lembro-me de um fim-de-semana durante o serviço militar vir a casa e vir a um fardamento e fruto dessa distância, se calhar por não ir as reuniões (porque não podia), sentir um certo afastamento por parte de algumas pessoas, ao ponto de sentir que não fui bem aceite nesse fardamento… era a ordem natural se calhar e assim chegou a altura de me afastar do CNE. Quando regressamos da tropa a vida acaba por ser diferente, o trabalho passa a ser um prioridade e depois constituímos família, o afastamento é natural.

 

Entrevistador: Então a partir daí continua a sua vida profissional e particular, vem a família… E os valores do escutismo, continuam a acompanhá-lo sempre e de repente aparece um grupo de pessoas com a ideia de fundar uma FNA em Urgezes. Houve um trabalho de identificar as pessoas que se identificavam com o escutismo e a ajuda preciosa novamente do Padre Joaquim Pimenta Rodrigues, ainda ele o pároco de Urgezes, que nos disse que a chave dos que realmente ainda sentiam o escutismo e ainda se identificavam com ele estava naquele grupo de antigos escuteiros que ainda se juntavam por altura da Sra. Da Lapinha. Seguimos o conselho dele, precioso e la reunimos e fizemos o convite. Qual foi a reação do Teixeira a esse convite?

Teixeira: No início fiquei um pouco de pé atrás, na expectativa de um completo desconhecido mas e com algum receio de dar o passo em frente, mas temos de destacar a forma como tudo foi acontecendo, e mesmo com diferentes idades, diferentes gerações e ideias diferentes, tudo aconteceu com um respeito mútuo enorme.

 

Entrevistador: Expectativa, eu acho ficamos todos….

Teixeira: Sim, sim, todos…. mas houve ali hesitação de muitos de nós, começando logo pela questão de vestir uma farda, era um assunto que provocava na altura algum desconforto, e ao fim de tantos anos era difícil imaginar-nos a voltar a vestir uma farda. É verdade que até foi um obstáculo que nunca passou a ser um problema, foi facilmente ultrapassado, mas até este assunto é tema de histórias durante aquele nosso processo de fundação, com o Araújo a afirmar que não voltava a usar uma farda, e em pouco tempo, a ser o maior defensor do uso da farda corretamente. Risos…

 

Entrevistador: Mas, então o que é que realmente o fez aceitar esse desafio?

Teixeira: Foi o gosto pelo escutismo, e também as pessoas que se propunham a fundar a FNA. O bichinho do escutismo estava lá, por isso não foi difícil aceitar o desafio.

 

Entrevistador: Quando fundamos o nosso Núcleo, encontramos uma realidade de escutismo completamente diferente, ou seja, 20 ou 30 anos faziam uma diferença enorme.

Teixeira: Sim, sem dúvida

  


6. Os 18 anos da FNA em Urgezes

Entrevistador: E aproveitando que estamos a falar de transformação, como tem assistido à transformação que a FNA tem sofrido? Somos hoje uma associação muito mais ativa, muito mais disponível do que há 18 anos atrás…

Teixeira: Houve uma evolução grande é verdade, hoje sentimo-nos mais úteis, mas a verdade é que também está muito mais exigente para todos e ainda bem assim é. Tem que haver essa exigência, é certo que acaba por afastar alguns, mas também seleciona e quem fica, é de alma e coração, porque gosta mesmo. Não devemos ter interesse apenas nos números, também tem que haver qualidade

 

Entrevistador: Concordo, mas quando fundamos o Núcleo em 2008, estávamos longe de imaginar a exigência que o futuro nos reservava e a própria dimensão que o nosso núcleo havia de atingir? Somos o maior núcleo da Região de Braga e consequentemente do país.

Teixeira: Somos a nível de efetivos e o resto também acompanha, penso que temos um núcleo com uma qualidade que espelha a dimensão do nosso Núcleo.

 

Entrevistador: A FNA em Urgezes tem 18 anos. Se tivesse que resumir estes 18 anos numa palavra, qual é que seria e por quê?

Teixeira: Eu escolho a palavra “família”, uma segunda família ou a “família de famílias” que muitas vezes falamos no nosso Núcleo. Só quem acompanha ou faz parte do nosso Núcleo é que poderá compreender esta forma de resumir.

 

Entrevistador: Que momentos considera mais marcantes na história do nosso número?

Teixeira: Um momento marcante para mim foi a nossa fundação, a fundação é sempre um momento marcante, mas nenhum de nós imaginava a dimensão que aquela cerimónia teve. Quando paramos e nos lembramos da forma como a região de braga esteve presente naquele momento é algo que nenhum de nós imaginava, mas agora depois de alguns anos podemos sentir que já era um pronúncio daquilo que aí vinha… Depois temos os nossos aniversários, todos eles marcantes de alguma forma, no quinto temos a coragem de levantar uma construção, no décimo o colóquio que elevou o nome e a qualidade do que vínhamos a fazer e no 15.º a representação da vida de Santo Estevão, realizada por nós e que brindou os convidados foi algo que se destacou. A mim pessoalmente a viagem à Suíça, a Kandersteg com o Agrupamento do Cne nos cinquenta anos do agrupamento foi algo que me marcou muito, como marcaram tantas outras atividades que deixam sempre uma marca. Mas há também aquela marca no pior sentido e aí temos mesmo de lembrar o Tomás, o Padre Joaquim, o Delfim, o Teixeira e o Araújo…

 

Entrevistador: E ao longo deste 18 anos, o que mudou no Teixeira?

Teixeira: Há sempre mudanças, não sinto que tenha mudado assim tanto mas há sempre adaptações a fazer, temos mesmo de o fazer, até por causa das pessoas que nos rodeiam. Digamos que mudou a disponibilidade, muito por culpa da reforma.

 

Entrevistador: Ora, e FNA? O que é que mudou na própria FNA?

Teixeira: Sinto que passou a haver muito mais sentido de responsabilidade. Fomos obrigados a isso… Ao assumirmos as coisas a responsabilidade aumenta e com o caminho de serviço que a FNA tem seguido as nossas responsabilidades também aumentam na mesma medida. A FNA tem-se adaptado bem e está, quanto a mim, no bom caminho.

 

Entrevistador: O nosso Núcleo é também um exemplo nessa adaptação. Ao longo dos anos temos assistido a associados do Núcleo que assumem funções em cargos Regionais e mesmo nacionais e há uma coisa que nunca nos poderão acusar, de não apoiar e estar presentes com os nossos, quer nas atividades nacionais, quer nas atividades regionais, muitas vezes até passando as atividades do próprio Núcleo para segundo plano.

Teixeira: Estamos sempre lá. Houve sempre esforço muito grande para estarmos presentes, mas temos conseguido, é algo que também engrandece o nosso Núcleo, seja através do orgulho de ver os nossos associados assumirem essas responsabilidades, seja mesmo simplesmente pela nossa presença constante que demonstra o nosso interesse pela FNA e o quanto gostamos dela.

 

Entrevistador: Qual foi a maior alegria ao longo destes 18 anos ou qual foi a atividade ou momento no núcleo com um significado especial?

Teixeira: É difícil. Há muitas alegrias, como já disse cada atividade trás uma satisfação diferente. Mas no meio de tantas alegrias tenho que destacar a alegria e a satisfação, mesmo pessoal de levantar e inaugurar a nossa sala Santo Estevão. Fizemos as reconstruções da nossa sede e da sala São Nuno, que foram momentos fantásticos de união e que em muito contribuíram para a união do nosso Núcleo mas esta sala teve um sentimento especial, se calhar porque consegui dar muito mais de mim até pela maior disponibilidade por causa da reforma, mas acho que sim que foi a construção e inauguração deste objetivo que se calhar para muitos parecia impossível. E o facto de ser feito por nós tem um significado diferente.

Entrevistador: A sede nasce num período de Covid, foi sem dúvida um projeto exigente em que demos muito e que no final se traduziu numa satisfação enorme, concordo.

 

Entrevistador: O que significa pertencer a grupo que além de compromisso associativo, existe a grande relação de amizade?

Teixeira: Eu acho que somos privilegiados por pertencer a este grupo, por isso para mim o significado é privilégio.

 

Entrevistador: Nestes anos em que fez parte da direção do Núcleo, falta o passo em frente. Ainda vamos ver o presidente Teixeira?

Teixeira: Não, acho que não. A resposta imediata e a minha vontade é que não, mas não digo que desta água não beberei. Mas acho que não tenho aquilo que é necessário, com toda a toda a humildade do mundo, acho que não…

 

Entrevistador: Eu acho que tem capacidade, a chave há-de estar na equipa sempre, pode não ter o à-vontade com os emails e a secretaria, mas tem outras qualidades que encaixam perfeitamente.

Teixeira: Deste núcleo, eu acho não, há coisas que sei que não tenho, dessa forma, e para o resto estava preparado, mas acho que não, não tenho mesmo o à vontade para isso, como falamos atrás, sou a pessoa de ficar no meio, a empurrar (até na missa fico ao meio da igreja normalmente), sou mais uma pessoa de terreno, de trabalho.

 


7. A FNA e o escutismo adulto

Entrevistador: Para alguém que não conhece a FNA, como é que explicaria o que é ser escuteiro adulto da FNA?

Teixeira: Penso que temos de ser exemplo, responsáveis e prontos para o serviço que é a nossa imagem de marca.

 

Entrevistador: O que distingue, na sua opinião, ser antigo escuteiro de continuar a ser escuteiro através da FNA?

Teixeira: Ser participativos, ter mais participação na sociedade.

 

Entrevistador: Então a FNA correspondeu àquilo que imaginava quando aceitou fazer parte dela?

Teixeira: Superou sem dúvida.

 

Entrevistador: Então superou. O que é que a FNA lhe dá hoje que talvez não tivesse encontrado noutra associação qualquer?

Teixeira: Todas as associações ou grupos dão coisas diferentes mas aqui a FNA deu-me a “segunda família”, deu-me uma vivência da fé diferente, uma realização maior.

 

Entrevistador: Depois de 18 anos, ainda sente que há coisas novas para aprender e descobrir na final?

Teixeira: Obviamente, coisas novas há sempre, não é? É só termos disponibilidade, abertura e vontade… desafios novos há sempre.

 

Entrevistador: e a FNA pode ainda evoluir então?

Teixeira: Sim, podemos evoluir. A FNA no geral tem vindo sempre a evoluir e o nosso Núcleo acompanha essa tendência de evolução naturalmente.

 

Entrevistador: E quais os desafios que considera que a FNA terá que enfrentar para continuar relevante como se tem apresentado na sociedade?

Teixeira: O maior desafio talvez seja a renovação da própria FNA. Fundamos o Núcleo com onze pessoas de gerações diferentes e crescemos até hoje com pessoas de idades e gerações diferentes mas parece-me que o maior desafio é continuar a chamar para a FNA novos associados. O compromisso, o receio ou mesmo o tal complexo da farda são obstáculos que vejo como difíceis de ultrapassar. A renovação é essencial para a continuação da FNA e esse é sem dúvida, se não o maior, um grande desafio.

Entrevistador: E a Goreti (esposa do Joaquim), ela que já é mais da FNA do que muitos associados por esse Portugal fora, quando é que abraça o desafio da promessa?

Teixeira: (sorriso) Na verdade ela nunca mostrou muito interesse em dar esse passo em frente, nunca sentiu essa necessidade, identifica-se com o Núcleo, acompanha-nos desde o inicio e trabalha junto connosco, mas nunca sentiu essa necessidade. Posso ser culpado em parte por nunca ter feito grande pressão, mas o sentimento é que ela efetivamente faz parte do núcleo mesmo sem a promessa.

  


8. Pessoas e relações

Entrevistador: Ao longo de tantos anos muitas pessoas cruzaram-se consigo no escutismo. Quem foi a pessoa que mais o marcou nesta caminhada e porquê?

Teixeira: Tenho muita gente que me marcou, muita gente mesmo, mas essa acaba por ser simples de responder. Apesar de sermos amigos desde o tempo de escola, fomos sempre amigos durante a vida toda, e acho que é notória uma cumplicidade grande que existiu sempre entre nós. Foi o José Manuel Araújo, foi um privilégio enorme ser amigo dele.

Entrevistador: Concordo que era uma pessoa especial para muitos de nós e pegando nas palavras do Teixeira, também eu me sinto um privilegiado por me ter cruzado com ele ao longo da vida.

 

Entrevistador: E há alguém que que gostaria de agradecer publicamente por aquilo que o escutismo representa hoje na sua vida?

Teixeira: Há! Há 1 pessoa que, infelizmente, já não está cá, que foi Chefe Zé Maria, foi das pessoas naquela fase de lobito para explorador que marcou muito… apesar ser nosso chefe, foi também um amigo, tinha connosco uma relação muito, muito especial. Havia também a Àquela que nos acolheu, mais ainda que o Padre Pimenta Rodrigues, mas o Chefe Zé Maria foi diferente, marcou muito.

 

Entrevistador: O que significa para si saber que é uma pessoa respeitada, admirada e querida pelos elementos do nome?

Teixeira: (risos) Sinto-me maravilhoso, e um privilegiado (estou a usar muito este este adjetivo) por ser respeitado e admirado por todos. Isto dá-me ânimo para que, com o meu exemplo e trabalho, não defraudar as expectativas que me são depositadas.

 


9. O futuro

Entrevistador: Agora no futuro, quando olhamos para a FNA dos dias de hoje, sente que ela corresponde aquilo que imaginava quando ajudou na fundação do Núcleo?

Teixeira: Já fomos falando sobre isso, mas sem dúvida que superou….

 

Entrevistador: O que gostaria que o núcleo pudesse alcançar nos próximos anos.

Teixeira: Continuar com a mesma força.

 

Entrevistador: Gostaria de ver mais antigos escuteiros regressarem ao movimento?

Teixeira: Gostava, mas não é fácil. Não é fácil porque vejo aquilo que se passou comigo, aquela história de eu dizer que tinha novamente de pegar numa farda, por exemplo, há aquelas pessoas que são mais recatadas, parece que têm um complexo, e torna difícil de dar aquele primeiro passo. Para não falar da falta de tempo constante das pessoas nos dias de hoje. Por vezes se sentirem que não vêm sozinhas pode facilitar, mas depois há questões como o acompanhamento no crescimento dos filhos, embora seria bom que cada um só da aquilo que pode, 50, 60 ou 70 por cento, em função até do tempo disponível. O que falta e mesmo aquela coragem de dar o primeiro passo.

 

Entrevistador: O que diria àqueles que guardam boas memórias do escutismo, mas ainda não deram esse primeiro passo para se juntarem à nossa caminhada na FNA?

Teixeira: Ganhem coragem…

 


10. Para terminar — uma dimensão mais pessoal

Entrevistador: Se pudesse voltar ao dia, em que entrou pela primeira vez para o escutismo, o que diria aquele rapaz que estava a começar essa caminhada?

Teixeira: Que sejas bem vindo, não tinhas medo, vais fazer parte duma grande escola para a vida.

 

Entrevistador: O que é afinal ser escuteiro depois destes anos todos?

Teixeira: É simplesmente continuar. É bocado isso, não é? Chegamos a um ponto em que faltam as palavras para descrever isto do escutismo, por isso acho é mesmo continuar, esto já faz parte de mim.

 

Entrevistador: Que mensagem gostaria de deixar aos atuais escuteiros (adultos ou jovens)?

Teixeira: (sorriso) Continuai a deixar o mundo um pouco melhor do que o encontraste.

 

Entrevistador: E finalmente, se tivesse de completar a frase, o escutismo mudou a minha vida porque….

Teixeira: Sou feliz aqui!!!

  


11. últimas questões:

Entrevistador: Qual a primeira imagem que lhe vem na cabeça quando pensa nos primeiros anos do escutismo?

Teixeira: Os acampamentos, sem dúvida.

 

Entrevistador: Há alguma história desses primeiros tempos que ainda hoje conta aos outros, ou comentam entre todos?

Teixeira: Várias, mas vou contar uma. Uma altura fomos a acampar para o monte do outeiro, eu era o guia de patrulha, e depois de comermos, havia um elemento que era a vez dele lavar a panela (ninguém gostava de lavar a panela) … entretanto no fim de comer ele não foi e eu comecei a enervar-me com ele ao ponto de agarrar num “bragasta” e dar-lhe 4 “bragastadas” – tava mesmo chateado. Ele amuou, virou costas, foi buscar uma corda atou a volta da barriga e pendurou-se numa árvore para de esganar pela barriga (muitos risos) …. Não deu em nada aquilo e não correu mal, mas na altura apanhei um valente susto. Ainda hoje quando estamos todos juntos vem a célebre pergunta: E o outro que se esganou pela barriga? (risos)

Hoje rimo-nos desta história, mas é um exemplo daquilo que fazíamos sem pensar nas consequências, como ainda hoje as crianças e os jovens fazem, mas brincadeiras que por vezes podem ter um final que não é o que desejamos.

 

Entrevistador: E qual foi a maior loucura fez enquanto escuteiro?

Teixeira: Essa foi sem dúvida o Rally Só Desce, em Fermentões, era organizado pelo CNE de lá e chegamos a participar três vezes. Nesse ano ganhamos, mas sem dúvida que foi mais uma loucura. O carro era todo de madeira, conduzido com cordas, mas no lugar dos rolamentos tinha já umas rodinhas de borracha que tinha sido o chefe Zé Maria que tinha arranjado. Parece uma história que não tinha nada de mal, mas vinha sem travões quase desde Pencelo até ali perto do Lidl em Fermentões, o carro ganhava já uma velocidade considerável e não havia quaisquer travões, aliás nós para parar ao chegar à meta atiravam pneus para a nossa frente para nos travarem. Não mediamos o perigo…, mas ganhámos é verdade!

 

Entrevistador: Qual o acampamento que nunca esqueceu?

Teixeira: Foi um acampamento que fizemos aqui em Urgezes ali em frente à funerário num monte de carvalhos que lá existia. O meu primeiro acampamento foi na boca da serra ali acima da atual casa do Adão marmorista, mas este que deve ter sido para aí o meu segundo acampamento foi onde completei a segunda classe, e sem dúvida que me marcou de uma forma diferente.

 

Entrevistador: Houve algum momento em que pensou, é por isto que vale a pena ser escuteiro?

Teixeira: Houve um bem recente no início deste ano de 2026, foi a atividade de “reerguer Leiria”. Tínhamos assistido nessa semana aos estragos que a tempestade Kristin tinha feito no centro do país e aquela atividade, pelo seu significado, pelo reconhecimento que teve, mas acima pela forma como foi combinada, de um dia para o outro, de uma tarde para a manhã seguinte, foi algo inexplicável. O sentimento que nos invadiu depois do trabalho de limpeza em que ajudamos, o espírito de amizade e entreajuda que encontramos, fez com que realmente terminasse o dia com esse pensamento de que é por isto que vale a pena ser escuteiro.

 

Entrevistador: Foi escuteiro quando era criança, afastou-se durante alguns anos e voltou mais tarde através da FNA. Olhando para trás, sente que afinal nunca chegou verdadeiramente a sair do escutismo.

Teixeira: Sim, acho que nunca saí do escutismo, o espírito ficou sempre lá, ou então foi o escutismo que nunca saiu de mim.

 

Entrevistador: Se tivesse a escolher uma palavra para definir o que o escutismo representa na sua vida, no geral, não no núcleo, no geral, qual seria?

Teixeira: FELICIDADE.