1. A pessoa: o Joaquim
Entrevistador: Então, começamos pela pessoa, pelo Teixeira.
O nome do Teixeira?
Teixeira: Joaquim Fernandes Teixeira.
Entrevistador: Ora, o Joaquim Fernandes Teixeira, conforme
nós o conhecemos, também conhecido por “Quim da Lage”.
Entrevistador: Nasceu em Urgezes, em 1957. Então, nasceu e
cresceu Urgezes…. Quando é que surgiu o 1º contacto com o escutismo?
Teixeira: O 1º contacto com o escutismo foi na altura em
que andávamos na catequese. Acho que já andava na preparação para a comunhão
solene. E, portanto, foi quando o Padre Joaquim Pimenta veio para Urgezes, e resolveu
fundar o escutismo… acabou por ser natural.
2. As primeiras memórias
Entrevistador: Então podemos dizer que realmente é dos
primeiros escuteiros de Urgezes, da fundação.
Teixeira: Penso que uns anos antes houve um grupo que
tentou arrancar o escutismo mas não funcionou, o nosso agrupamento nasce com a
iniciativa do Padre Pimenta Rodrigues, um grupo do qual fiz parte em finais de
1968.
Teixeira: Normalmente fala-se na fundação do CNE em 1969,
mas foi em novembro de 1968 que arrancou a alcateia dos lobitos em Urgezes e o
agrupamento propriamente dito nasce em Junho de 1969.
Entrevistador: Então, a pergunta o que é que o levou para o
escutismo acaba por não fazer grande sentido…
Teixeira: Não, não faz. Era um grupo de amigos que fazia
parte da catequese e agarrou-se a uma novidade. Praticamente foi quase por, não
por imposição, mas de forma natural fomos todos arrastados para o escutismo.
Aquilo era novidade, quase ninguém sabia o que era o escutismo, não havia
muitos agrupamentos à volta e era algo desconhecido, até porque eram tempos em
que não haviam relações com as freguesias à volta com a facilidade que vemos
hoje, acabávamos por viver mais na nossa paróquia.
Entrevistador: Também não havia facilidade nas deslocações
como há hoje e isso faz diferença hoje em dia.
Teixeira: Eramos miúdos de 9 ou dez anos, começamos com
um grupo de 14 ou 15, dois bandos (o bando branco e o bando preto) dos quais
fazíamos parte eu, o Araújo e o Lima logo no grupo inicial, sendo que depois se
juntaram outros como o Chico, o Delfim e outros. Naquela altura andaríamos na
quarta classe, se calhar já quase, terceira, quarta, talvez.
Entrevistador: E a família naquele tempo, as famílias tinham
muito mais trabalho em casa. Como é que eles olhavam para um filho que “fugia”
para um escutismo desconhecido?
Teixeira: Não queriam. Aquilo praticamente não foi
fugir, aquilo foi, quase um prolongamento da catequese, e fui o único filho a
ser escuteiro. Foi se calhar se calhar o facto de ser através da catequese e
que acabou por ser aceite e funcionar. Mas o dia de reunião era sem dúvida uma
festa, as reuniões eram a segunda-feira e serviam também como uma desculpa para
fugir ao trabalho que a minha família ia fazendo na agricultura.
Entrevistador: Mas é engraçado porque nota-se que a relação
entre escuteiros, é uma verdadeira relação de amizade, especialmente nas
gerações mais antigas em que as distrações eram muito menos. Ou seja, esse tal
querer sair de casa porque não havia mais nada, tinha outro significado e acabava
por unir muito mais uns aos outros.
Teixeira: É verdade e isso nota-se num grupo que ainda
hoje se reúne anualmente por altura da Senhora da Lapinha em que de 13 ou 14
pessoas, no mínimo 8 vêm desses primeiros tempos de escutismo em Urgezes. A
ligação ficou sempre… e há sempre coisas e pessoas para lembrar, é uma ligação
bonita que perdura.
Entrevistador: Nesses primeiros passos que deu no escutismo,
o que é que se recorda?
Teixeira: Era uma coisa nova que ninguém conhecia, foi o
confiar naquilo que o padre Joaquim nos passava... ele era sem dúvida uma
referência para nós.
Entrevistador: Mas é engraçado porque ao falarmos do Padre
Joaquim com alguns de vocês que fizeram parte desse grupo inicial nota-se um
sentimento especial… quem conheceu o padre Joaquim, já numa numa fase mais para
frente da sua vida em Urgezes, recorda-se de uma pessoa com regras, uma pessoa
muito no seu lugar e por quem havia um respeito enorme, mas quando ouvimos o
Teixeira, o Lima ou o Araújo por exemplo falar dele, sentimos que ouvimos falar
um pouco de um outro padre Joaquim, uma pessoa muito mais próxima, se calhar
mais amigo (não que ele não fosse nosso amigo) ….
Teixeira: Era sem dúvida um amigo, uma pessoa que
pautava pela disciplina, mas talvez porque trazia essa novidade do escutismo,
arranjou uma forma diferente de nos abraçar a todos de uma forma especial...
Criamos por ele, pela Àquela e também pelo Chefe Zé Maria um carinho especial.
Aliás, quando nos juntamos, esse tal grupo dos antigos escuteiros, como é
conhecido, acabamos sempre por de alguma forma os lembrar nas nossas conversas.
A verdade é que o escutismo naquela época permitia-me “fugir” um pouco de casa,
do trabalho da lavoura (porque eu era de uma família de trabalho no campo), e
essa fuga permitiu criar um grupo de amigos excecional.
Entrevistador: Há alguma atividade, acampamento, cerimónia
logo nestes primeiros anos que fico marcada?
Teixeira: Acho que todos os momentos forma marcantes de
alguma forma, desde logo aqueles primeiros passos, aquela novidade que era o
escutismo, mas há uma atividade que fizemos, um acampamento em Santiago de
Compostela que me ficou na memória, talvez pelo facto de termos ido a Espanha,
fora de país, mas também pelo temporal que se fez sentir e claro pelas
peripécias que guardo – e agora que estamos a falar disso há algumas que até
nem me lembrava mas que vem à memória e me fazem sorrir.
Entrevistador: Quando falamos da fundação do CNE em Urgezes,
naquela altura, daquele grupo de escuteiros jovens que hoje são adultos, tinham
a perceção da importância que isto poderia ter na vida de cada um de vocês e
mesmo para a própria paróquia de Urgezes?
Teixeira:
Não, não mesmo. Não podíamos esperar de forma alguma aquilo que nos esperava…. Não
tínhamos a noção, nada, nada, nada…. Começamos num desconhecimento enorme, mas
com uma confiança também desmedida em quem nos guiava nesse caminho. A própria
farda começa por ter as suas histórias, porque no início a camisa era azul e
depois havia o calção e as meias e jarreteiras. Eu e outro na altura tínhamos
uns calções diferentes mas há ultima da hora alguém arranjou um tecido e
fizeram-nos uns calções iguais aos dos outros para irmos todos iguais. Já aqui
começava o brio e o gosto do fardamento em condições que o Padre Joaquim sempre
defendeu.
3. O escutismo e a formação da
pessoa
Entrevistador: O que é que o escutismo lhe foi ensinando
enquanto criança e jovem? Ainda naquela fase de criança e jovem, o que é, se há
alguma coisa que tenha sentido? Eu costumo dizer, por exemplo eu, que que o escutismo
me ensinou a estar em grupo. Há alguma coisa que que desde esse momento sinta
que fez a diferença?
Teixeira: Pois bem, a ideia que eu tenho, já vão já lá
vão para os 50 e anos, mas acho que a palavra que melhor responde a essa
questão é regras, o hábito de ter regras e de estar em grupo, eramos todos
diferentes e essas regras em patrulha fizeram toda a diferença.
Entrevistador: Podemos dizer que há valores que tenha
aprendido no escutismo e que ainda hoje orientam a sua vida.
Teixeira: Sempre. Sempre foram valores que se mantiveram
ao longo de toda a vida.
Entrevistador: Quando olhamos para a pessoa que era quando
entrou para os escuteiros, e para o Joaquim dos dias de hoje, acha que o
escutismo contribuiu para a personalidade que criou durante a vida?
Teixeira: Sim senhor, mesmo, sem dúvida nenhuma… aliás,
isso acompanhou sempre praticamente em minha vida, mesmo depois de sair do CNE
e durante 30 anos de interregno… até porque o escutismo é sem margem para
dúvidas uma escola de vida… Muitas vezes damos por nos a comentar entre nós
(aqueles que conviverem de perto com o Padre Joaquim Pimenta Rodrigues) a dizer
que faz falta é aqui o Padre Pimenta, pela falta de regras e organização que
assistimos em muitas das coisas que vamos vivendo. Há um reconhecimento nesse aspeto
fora de serie por aquilo que representou o Padre Joaquim.
Entrevistador: Hoje nós notamos que às vezes faz falta
aquela a regra certa na altura certa, dá-se liberdade a mais….
Teixeira: Exatamente. É verdade…. Lá está por isso é que
tantas vezes ouvíamos o nosso amigo Araújo dizer “faz falta aqui o Pimenta
Rodrigues…”
Entrevistador: Então podemos dizer que que sim, que o
escutismo contribuiu de forma a lidar com pessoas, com responsabilidades e
mesmo com as dificuldades do dia-a-dia. Há alguma característica da sua
personalidade que reconheça como tendo sido particularmente moldada pelo
escutismo?
Teixeira: Acho que sim, posso mesmo dizer que foram
pilares – Rigor, disciplina, ponderação calma e mesmo organização… a minha
calma, sou bocado calmo, não sou muito, sou um bocado ponderado e em muito se
deve ao escutismo.
Entrevistador: E a nível profissional? O Teixeira já está
reformado, mas durante o seu trabalho, que foi de lidar com pessoas no
dia-a-dia, o escutismo também ajudou?
Teixeira: Acaba tudo por estar interligado de alguma
forma e contribuir sempre… o escutismo e a vida em patrulha ensina-nos sobre a
equipa, a responsabilidade, a própria liderança e são valores que depois são essenciais no nosso dia a dia e
no nosso trabalho.
4. Trabalho em equipa e liderança
Entrevistador: O que aprendeu no escutismo sobre trabalhar
com pessoas diferentes de nós?
Teixeira: Aprendi a ser tolerante e a aceitar as diferenças
dos outros, sem dúvida.
Entrevistador: Ao longo dos anos assumiu também
responsabilidades em várias direções, principalmente na FNA. O que é que
significa para si liderar dentro de 1 associação como a FNA, sendo que
conhecemos um Teixeira, que habitualmente não é a pessoa que gosta de ir com a
bandeira lá na frente, prefere ir mais no meio a empurrar os outros? É uma
pessoa de trabalho… mas o que é que significou fazer parte de várias direções
na FNA?
Teixeira: Essencialmente o sentido de responsabilidade. Isso
nem discussão…. Mas também um orgulho muito grande.
Entrevistador: O Zé Carlos quando deixou a presidência do
Núcleo assumiu que as primeiras duas pessoas com quem quis contar na direção
dele eram o Teixeira e o Araújo, o Teixeira pela calma e ponderação, como que
um pêndulo essencial e o Araújo pelo gosto pela FNA e de não fazer apenas por
fazer… mas para além dessa direção vemos um Teixeira orgulhoso por ter feito
parte das direções que fez até hoje, incluindo a atual da qual é
Vice-Presidente.
Entrevistador: É mais difícil liderar ou trabalhar em e com
a equipe?
Teixeira: Eu acho que é mais difícil liderar. Porque
nunca é fácil liderar, são várias personalidades diferentes, várias ideias e
quando falamos de adultos a coisa ainda é mais especial, os adultos têm uma
ideia própria e na FNA falamos de liderança de adultos…
Entrevistador: O que é que considera essencial para que um
grupo de pessoas como nós, no nosso Núcleo de Urgezes da FNA, consiga
permanecer unido durante tantos anos como temos conseguido?
Teixeira: Penso que são três pontos essenciais, o
respeito, a amizade e o exemplo.
5. O afastamento e o regresso
Entrevistador: Então, foi escuteiro até aos vinte e poucos,
foi à tropa, e a vida chama-o para outros caminhos, Acaba por se afastar do
movimento escutista, o que acaba por ser um trajeto natural. Aqui a questão é
como aconteceu esse afastamento?
Teixeira: Na altura da minha geração eramos já poucos,
foram se afastando uns e outros e quando fui para a tropa, cumprir o serviço
militar, o afastamento foi mais forçado ainda… Lembro-me de um fim-de-semana
durante o serviço militar vir a casa e vir a um fardamento e fruto dessa
distância, se calhar por não ir as reuniões (porque não podia), sentir um certo
afastamento por parte de algumas pessoas, ao ponto de sentir que não fui bem
aceite nesse fardamento… era a ordem natural se calhar e assim chegou a altura
de me afastar do CNE. Quando regressamos da tropa a vida acaba por ser
diferente, o trabalho passa a ser um prioridade e depois constituímos família,
o afastamento é natural.
Entrevistador: Então a partir daí continua a sua vida
profissional e particular, vem a família… E os valores do escutismo, continuam
a acompanhá-lo sempre e de repente aparece um grupo de pessoas com a ideia de
fundar uma FNA em Urgezes. Houve um trabalho de identificar as pessoas que se
identificavam com o escutismo e a ajuda preciosa novamente do Padre Joaquim
Pimenta Rodrigues, ainda ele o pároco de Urgezes, que nos disse que a chave dos
que realmente ainda sentiam o escutismo e ainda se identificavam com ele estava
naquele grupo de antigos escuteiros que ainda se juntavam por altura da Sra. Da
Lapinha. Seguimos o conselho dele, precioso e la reunimos e fizemos o convite.
Qual foi a reação do Teixeira a esse convite?
Teixeira: No início fiquei um pouco de pé atrás, na
expectativa de um completo desconhecido mas e com algum receio de dar o passo
em frente, mas temos de destacar a forma como tudo foi acontecendo, e mesmo com
diferentes idades, diferentes gerações e ideias diferentes, tudo aconteceu com
um respeito mútuo enorme.
Entrevistador: Expectativa, eu acho ficamos todos….
Teixeira: Sim, sim, todos…. mas houve ali hesitação de
muitos de nós, começando logo pela questão de vestir uma farda, era um assunto
que provocava na altura algum desconforto, e ao fim de tantos anos era difícil
imaginar-nos a voltar a vestir uma farda. É verdade que até foi um obstáculo
que nunca passou a ser um problema, foi facilmente ultrapassado, mas até este
assunto é tema de histórias durante aquele nosso processo de fundação, com o
Araújo a afirmar que não voltava a usar uma farda, e em pouco tempo, a ser o
maior defensor do uso da farda corretamente. Risos…
Entrevistador: Mas, então o que é que realmente o fez
aceitar esse desafio?
Teixeira: Foi o gosto pelo escutismo, e também as
pessoas que se propunham a fundar a FNA. O bichinho do escutismo estava lá, por
isso não foi difícil aceitar o desafio.
Entrevistador: Quando fundamos o nosso Núcleo, encontramos uma
realidade de escutismo completamente diferente, ou seja, 20 ou 30 anos faziam
uma diferença enorme.
Teixeira: Sim, sem dúvida
6. Os 18 anos da FNA em Urgezes
Entrevistador: E aproveitando que estamos a falar de
transformação, como tem assistido à transformação que a FNA tem sofrido? Somos
hoje uma associação muito mais ativa, muito mais disponível do que há 18 anos
atrás…
Teixeira: Houve uma evolução grande é verdade, hoje
sentimo-nos mais úteis, mas a verdade é que também está muito mais exigente
para todos e ainda bem assim é. Tem que haver essa exigência, é certo que acaba
por afastar alguns, mas também seleciona e quem fica, é de alma e coração,
porque gosta mesmo. Não devemos ter interesse apenas nos números, também tem
que haver qualidade
Entrevistador: Concordo, mas quando fundamos o Núcleo em
2008, estávamos longe de imaginar a exigência que o futuro nos reservava e a
própria dimensão que o nosso núcleo havia de atingir? Somos o maior núcleo da
Região de Braga e consequentemente do país.
Teixeira: Somos a nível de efetivos e o resto também
acompanha, penso que temos um núcleo com uma qualidade que espelha a dimensão
do nosso Núcleo.
Entrevistador: A FNA em Urgezes tem 18 anos. Se tivesse que
resumir estes 18 anos numa palavra, qual é que seria e por quê?
Teixeira: Eu escolho a palavra “família”, uma segunda
família ou a “família de famílias” que muitas vezes falamos no nosso Núcleo. Só
quem acompanha ou faz parte do nosso Núcleo é que poderá compreender esta forma
de resumir.
Entrevistador: Que momentos considera mais marcantes na
história do nosso número?
Teixeira: Um momento marcante para mim foi a nossa
fundação, a fundação é sempre um momento marcante, mas nenhum de nós imaginava
a dimensão que aquela cerimónia teve. Quando paramos e nos lembramos da forma
como a região de braga esteve presente naquele momento é algo que nenhum de nós
imaginava, mas agora depois de alguns anos podemos sentir que já era um
pronúncio daquilo que aí vinha… Depois temos os nossos aniversários, todos eles
marcantes de alguma forma, no quinto temos a coragem de levantar uma
construção, no décimo o colóquio que elevou o nome e a qualidade do que
vínhamos a fazer e no 15.º a representação da vida de Santo Estevão, realizada
por nós e que brindou os convidados foi algo que se destacou. A mim
pessoalmente a viagem à Suíça, a Kandersteg com o Agrupamento do Cne nos
cinquenta anos do agrupamento foi algo que me marcou muito, como marcaram
tantas outras atividades que deixam sempre uma marca. Mas há também aquela
marca no pior sentido e aí temos mesmo de lembrar o Tomás, o Padre Joaquim, o
Delfim, o Teixeira e o Araújo…
Entrevistador: E ao longo deste 18 anos, o que mudou no Teixeira?
Teixeira: Há sempre mudanças, não sinto que tenha mudado
assim tanto mas há sempre adaptações a fazer, temos mesmo de o fazer, até por
causa das pessoas que nos rodeiam. Digamos que mudou a disponibilidade, muito
por culpa da reforma.
Entrevistador: Ora, e FNA? O que é que mudou na própria FNA?
Teixeira: Sinto que passou a haver muito mais sentido de
responsabilidade. Fomos obrigados a isso… Ao assumirmos as coisas a
responsabilidade aumenta e com o caminho de serviço que a FNA tem seguido as
nossas responsabilidades também aumentam na mesma medida. A FNA tem-se adaptado
bem e está, quanto a mim, no bom caminho.
Entrevistador: O nosso Núcleo é também um exemplo nessa
adaptação. Ao longo dos anos temos assistido a associados do Núcleo que assumem
funções em cargos Regionais e mesmo nacionais e há uma coisa que nunca nos
poderão acusar, de não apoiar e estar presentes com os nossos, quer nas
atividades nacionais, quer nas atividades regionais, muitas vezes até passando
as atividades do próprio Núcleo para segundo plano.
Teixeira: Estamos sempre lá. Houve sempre esforço muito grande
para estarmos presentes, mas temos conseguido, é algo que também engrandece o
nosso Núcleo, seja através do orgulho de ver os nossos associados assumirem
essas responsabilidades, seja mesmo simplesmente pela nossa presença constante
que demonstra o nosso interesse pela FNA e o quanto gostamos dela.
Entrevistador: Qual foi a maior alegria ao longo destes 18
anos ou qual foi a atividade ou momento no núcleo com um significado especial?
Teixeira: É difícil. Há muitas alegrias, como já disse
cada atividade trás uma satisfação diferente. Mas no meio de tantas alegrias
tenho que destacar a alegria e a satisfação, mesmo pessoal de levantar e
inaugurar a nossa sala Santo Estevão. Fizemos as reconstruções da nossa sede e
da sala São Nuno, que foram momentos fantásticos de união e que em muito
contribuíram para a união do nosso Núcleo mas esta sala teve um sentimento
especial, se calhar porque consegui dar muito mais de mim até pela maior
disponibilidade por causa da reforma, mas acho que sim que foi a construção e
inauguração deste objetivo que se calhar para muitos parecia impossível. E o
facto de ser feito por nós tem um significado diferente.
Entrevistador: A sede nasce num período de Covid, foi sem dúvida um projeto exigente em que demos muito e que no final se traduziu numa satisfação enorme, concordo.
Entrevistador: O que significa pertencer a grupo que além de
compromisso associativo, existe a grande relação de amizade?
Teixeira: Eu acho que somos privilegiados por pertencer
a este grupo, por isso para mim o significado é privilégio.
Entrevistador: Nestes anos em que fez parte da direção do
Núcleo, falta o passo em frente. Ainda vamos ver o presidente Teixeira?
Teixeira: Não, acho que não. A resposta imediata e a
minha vontade é que não, mas não digo que desta água não beberei. Mas acho que
não tenho aquilo que é necessário, com toda a toda a humildade do mundo, acho
que não…
Entrevistador: Eu acho que tem capacidade, a chave há-de
estar na equipa sempre, pode não ter o à-vontade com os emails e a secretaria,
mas tem outras qualidades que encaixam perfeitamente.
Teixeira: Deste núcleo, eu acho não, há coisas que sei
que não tenho, dessa forma, e para o resto estava preparado, mas acho que não,
não tenho mesmo o à vontade para isso, como falamos atrás, sou a pessoa de
ficar no meio, a empurrar (até na missa fico ao meio da igreja normalmente),
sou mais uma pessoa de terreno, de trabalho.
7. A FNA e o escutismo adulto
Entrevistador: Para alguém que não conhece a FNA, como é que
explicaria o que é ser escuteiro adulto da FNA?
Teixeira: Penso que temos de ser exemplo, responsáveis e
prontos para o serviço que é a nossa imagem de marca.
Entrevistador: O que distingue, na sua opinião, ser antigo
escuteiro de continuar a ser escuteiro através da FNA?
Teixeira: Ser participativos, ter mais participação na
sociedade.
Entrevistador: Então a FNA correspondeu àquilo que imaginava
quando aceitou fazer parte dela?
Teixeira: Superou sem dúvida.
Entrevistador: Então superou. O que é que a FNA lhe dá hoje
que talvez não tivesse encontrado noutra associação qualquer?
Teixeira: Todas as associações ou grupos dão coisas
diferentes mas aqui a FNA deu-me a “segunda família”, deu-me uma vivência da fé
diferente, uma realização maior.
Entrevistador: Depois de 18 anos, ainda sente que há coisas
novas para aprender e descobrir na final?
Teixeira: Obviamente, coisas novas há sempre, não é? É
só termos disponibilidade, abertura e vontade… desafios novos há sempre.
Entrevistador: e a FNA pode ainda evoluir então?
Teixeira: Sim, podemos evoluir. A FNA no geral tem vindo
sempre a evoluir e o nosso Núcleo acompanha essa tendência de evolução
naturalmente.
Entrevistador: E quais os desafios que considera que a FNA
terá que enfrentar para continuar relevante como se tem apresentado na
sociedade?
Teixeira: O maior desafio talvez seja a renovação da
própria FNA. Fundamos o Núcleo com onze pessoas de gerações diferentes e
crescemos até hoje com pessoas de idades e gerações diferentes mas parece-me
que o maior desafio é continuar a chamar para a FNA novos associados. O
compromisso, o receio ou mesmo o tal complexo da farda são obstáculos que vejo
como difíceis de ultrapassar. A renovação é essencial para a continuação da FNA
e esse é sem dúvida, se não o maior, um grande desafio.
Entrevistador: E a Goreti (esposa do Joaquim), ela que já é
mais da FNA do que muitos associados por esse Portugal fora, quando é que
abraça o desafio da promessa?
Teixeira: (sorriso) Na verdade ela nunca mostrou muito
interesse em dar esse passo em frente, nunca sentiu essa necessidade,
identifica-se com o Núcleo, acompanha-nos desde o inicio e trabalha junto
connosco, mas nunca sentiu essa necessidade. Posso ser culpado em parte por
nunca ter feito grande pressão, mas o sentimento é que ela efetivamente faz
parte do núcleo mesmo sem a promessa.
8. Pessoas e relações
Entrevistador: Ao longo de tantos anos muitas pessoas
cruzaram-se consigo no escutismo. Quem foi a pessoa que mais o marcou nesta
caminhada e porquê?
Teixeira: Tenho muita gente que me marcou, muita gente
mesmo, mas essa acaba por ser simples de responder. Apesar de sermos amigos
desde o tempo de escola, fomos sempre amigos durante a vida toda, e acho que é notória
uma cumplicidade grande que existiu sempre entre nós. Foi o José Manuel Araújo,
foi um privilégio enorme ser amigo dele.
Entrevistador: Concordo que era uma pessoa especial para
muitos de nós e pegando nas palavras do Teixeira, também eu me sinto um
privilegiado por me ter cruzado com ele ao longo da vida.
Entrevistador: E há alguém que que gostaria de agradecer
publicamente por aquilo que o escutismo representa hoje na sua vida?
Teixeira: Há! Há 1 pessoa que, infelizmente, já não está
cá, que foi Chefe Zé Maria, foi das pessoas naquela fase de lobito para explorador
que marcou muito… apesar ser nosso chefe, foi também um amigo, tinha connosco
uma relação muito, muito especial. Havia também a Àquela que nos acolheu, mais
ainda que o Padre Pimenta Rodrigues, mas o Chefe Zé Maria foi diferente, marcou
muito.
Entrevistador: O que significa para si saber que é uma
pessoa respeitada, admirada e querida pelos elementos do nome?
Teixeira: (risos) Sinto-me maravilhoso, e um
privilegiado (estou a usar muito este este adjetivo) por ser respeitado e
admirado por todos. Isto dá-me ânimo para que, com o meu exemplo e trabalho, não
defraudar as expectativas que me são depositadas.
9. O futuro
Entrevistador: Agora no futuro, quando olhamos para a FNA dos
dias de hoje, sente que ela corresponde aquilo que imaginava quando ajudou na
fundação do Núcleo?
Teixeira: Já fomos falando sobre isso, mas sem dúvida
que superou….
Entrevistador: O que gostaria que o núcleo pudesse alcançar
nos próximos anos.
Teixeira: Continuar com a mesma força.
Entrevistador: Gostaria de ver mais antigos escuteiros
regressarem ao movimento?
Teixeira: Gostava, mas não é fácil. Não é fácil porque vejo
aquilo que se passou comigo, aquela história de eu dizer que tinha novamente de
pegar numa farda, por exemplo, há aquelas pessoas que são mais recatadas, parece
que têm um complexo, e torna difícil de dar aquele primeiro passo. Para não
falar da falta de tempo constante das pessoas nos dias de hoje. Por vezes se
sentirem que não vêm sozinhas pode facilitar, mas depois há questões como o
acompanhamento no crescimento dos filhos, embora seria bom que cada um só da
aquilo que pode, 50, 60 ou 70 por cento, em função até do tempo disponível. O que
falta e mesmo aquela coragem de dar o primeiro passo.
Entrevistador: O que diria àqueles que guardam boas memórias
do escutismo, mas ainda não deram esse primeiro passo para se juntarem à nossa
caminhada na FNA?
Teixeira: Ganhem coragem…
10. Para terminar — uma dimensão
mais pessoal
Entrevistador: Se pudesse voltar ao dia, em que entrou pela primeira
vez para o escutismo, o que diria aquele rapaz que estava a começar essa
caminhada?
Teixeira: Que sejas bem vindo, não tinhas medo, vais
fazer parte duma grande escola para a vida.
Entrevistador: O que é afinal ser escuteiro depois destes
anos todos?
Teixeira: É simplesmente continuar. É bocado isso, não
é? Chegamos a um ponto em que faltam as palavras para descrever isto do
escutismo, por isso acho é mesmo continuar, esto já faz parte de mim.
Entrevistador: Que mensagem gostaria de deixar aos atuais escuteiros
(adultos ou jovens)?
Teixeira: (sorriso) Continuai a deixar o mundo um pouco
melhor do que o encontraste.
Entrevistador: E finalmente, se tivesse de completar a
frase, o escutismo mudou a minha vida porque….
Teixeira: Sou feliz aqui!!!
11. últimas questões:
Entrevistador: Qual a primeira imagem que lhe vem na cabeça
quando pensa nos primeiros anos do escutismo?
Teixeira: Os acampamentos, sem dúvida.
Entrevistador: Há alguma história desses primeiros tempos
que ainda hoje conta aos outros, ou comentam entre todos?
Teixeira: Várias, mas vou contar uma. Uma altura fomos a
acampar para o monte do outeiro, eu era o guia de patrulha, e depois de
comermos, havia um elemento que era a vez dele lavar a panela (ninguém gostava
de lavar a panela) … entretanto no fim de comer ele não foi e eu comecei a
enervar-me com ele ao ponto de agarrar num “bragasta” e dar-lhe 4 “bragastadas”
– tava mesmo chateado. Ele amuou, virou costas, foi buscar uma corda atou a
volta da barriga e pendurou-se numa árvore para de esganar pela barriga (muitos
risos) …. Não deu em nada aquilo e não correu mal, mas na altura apanhei um
valente susto. Ainda hoje quando estamos todos juntos vem a célebre pergunta: E
o outro que se esganou pela barriga? (risos)
Hoje rimo-nos desta história, mas é um
exemplo daquilo que fazíamos sem pensar nas consequências, como ainda hoje as
crianças e os jovens fazem, mas brincadeiras que por vezes podem ter um final
que não é o que desejamos.
Entrevistador: E qual foi a maior loucura fez enquanto escuteiro?
Teixeira: Essa foi sem dúvida o Rally Só Desce, em
Fermentões, era organizado pelo CNE de lá e chegamos a participar três vezes.
Nesse ano ganhamos, mas sem dúvida que foi mais uma loucura. O carro era todo
de madeira, conduzido com cordas, mas no lugar dos rolamentos tinha já umas
rodinhas de borracha que tinha sido o chefe Zé Maria que tinha arranjado.
Parece uma história que não tinha nada de mal, mas vinha sem travões quase
desde Pencelo até ali perto do Lidl em Fermentões, o carro ganhava já uma
velocidade considerável e não havia quaisquer travões, aliás nós para parar ao
chegar à meta atiravam pneus para a nossa frente para nos travarem. Não
mediamos o perigo…, mas ganhámos é verdade!
Entrevistador: Qual o acampamento que nunca esqueceu?
Teixeira: Foi um acampamento que fizemos aqui em Urgezes
ali em frente à funerário num monte de carvalhos que lá existia. O meu primeiro
acampamento foi na boca da serra ali acima da atual casa do Adão marmorista,
mas este que deve ter sido para aí o meu segundo acampamento foi onde completei
a segunda classe, e sem dúvida que me marcou de uma forma diferente.
Entrevistador: Houve algum momento em que pensou, é por isto
que vale a pena ser escuteiro?
Teixeira: Houve um bem recente no início deste ano de
2026, foi a atividade de “reerguer Leiria”. Tínhamos assistido nessa semana aos
estragos que a tempestade Kristin tinha feito no centro do país e aquela
atividade, pelo seu significado, pelo reconhecimento que teve, mas acima pela
forma como foi combinada, de um dia para o outro, de uma tarde para a manhã
seguinte, foi algo inexplicável. O sentimento que nos invadiu depois do
trabalho de limpeza em que ajudamos, o espírito de amizade e entreajuda que
encontramos, fez com que realmente terminasse o dia com esse pensamento de que
é por isto que vale a pena ser escuteiro.
Entrevistador: Foi escuteiro quando era criança, afastou-se
durante alguns anos e voltou mais tarde através da FNA. Olhando para trás,
sente que afinal nunca chegou verdadeiramente a sair do escutismo.
Teixeira: Sim, acho que nunca saí do escutismo, o espírito
ficou sempre lá, ou então foi o escutismo que nunca saiu de mim.
Entrevistador: Se tivesse a escolher uma palavra para
definir o que o escutismo representa na sua vida, no geral, não no núcleo, no
geral, qual seria?
Teixeira: FELICIDADE.




















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